Em Valparaíso de Goiás, a rotina das mulheres negras revela uma realidade marcada por força, resistência e, sobretudo, desafios que ainda persistem em pleno século XXI. Embora conquistas sociais importantes tenham sido alcançadas, elas seguem enfrentando obstáculos que passam pela cor da pele, pelo gênero e pelas oportunidades negadas — ou permitidas apenas com muito mais esforço.
“A gente precisa provar o dobro para ser levada a sério”, resume a auxiliar administrativa Alice Santos, moradora do Jardim Céu Azul. Aos 28 anos, ela explica que grande parte das barreiras que enfrenta não são explícitas, mas se manifestam em olhares, comparações e desconfianças:
“Eu entro numa entrevista e já percebo a diferença no tratamento. É como se eu tivesse que justificar minha competência antes mesmo de falar.”

Racismo velado e cotidiano exaustivo
Relatos como o de Alice se repetem entre as entrevistadas. A comerciante Leticia Moura, de 41 anos, dona de uma loja no Parque Rio Branco, lembra de situações em que clientes simplesmente se recusavam a ser atendidos por ela.
“Teve uma vez que uma mulher perguntou se não tinha ‘alguém responsável’ na loja. Eu era a dona. Isso cansa, corrói, mas também fortalece.”
A pedagoga Camila Almeida, 32, que trabalha com crianças em escolas públicas da cidade, destaca o racismo que encontra dentro da própria sala de aula:
“Crianças negras chegam dizendo que não gostam do próprio cabelo, que querem ter ‘pele mais clara’. Isso parte de algo que elas absorvem dentro e fora de casa. Meu trabalho vai além de ensinar — é resgatar autoestima todos os dias.”
Beleza e autoestima: luta silenciosa
Para muitas, o corpo e o cabelo viram campo de batalha. Em um município onde os padrões estéticos ainda reproduzem influências externas, especialmente das redes sociais, assumir a própria identidade exige coragem.
A estudante Edi Araújo, 19, do bairro Anhanguera, lembra do bullying sofrido no colégio por causa do cabelo crespo.
“Demorei anos para parar de alisar. Hoje eu amo meu cabelo, mas foi um processo doloroso. As pessoas tratam como se fosse ‘frescura’, mas mexe com tudo — com a forma como você se enxerga, como fala, até com as oportunidades.”
Trabalho e renda: barreiras que persistem
O mercado de trabalho também é um campo desigual. Mulheres negras de Valparaíso relatam jornadas duplas, salários menores e pouca chance de crescimento profissional.
Segundo um levantamento da Folha do Val com consultorias de RH da região, candidatas negras ainda recebem menos convites para entrevistas e têm mais dificuldade de ocupar cargos de liderança, especialmente em setores administrativos e comerciais.
A técnica de enfermagem Mariana Souza, 36, que trabalha no Céu Azul, relata:
“Mesmo com experiência, eu sempre vejo pessoas com menos tempo de profissão sendo promovidas antes de mim. É difícil não sentir que minha cor pesa.”
Rotina, filhos e medo: a sobrecarga invisível
Além das desigualdades formais, existe o medo constante pela própria segurança e a de seus filhos. Para muitas mães negras, o simples ato de ver um filho adolescente sair de casa já provoca ansiedade.
“Meu filho tem 16 anos. Eu ensino ele a andar com documento, a não correr, a falar baixo. É pesado dizer isso, mas é para mantê-lo vivo”, desabafa Silvia Ribeiro, moradora do Valparaíso II.
Representatividade que inspira
Apesar das dificuldades, as mulheres negras da cidade também se tornam referências locais. Influenciadoras, professoras, empreendedoras e líderes comunitárias estão transformando espaços e mostrando que resistência também abre portas.
A artista Gabi Monteiro, 27, que pinta murais em Valparaíso, explica:
“Quando uma menina preta vê outra mulher preta em destaque, ela entende que também pode. Isso é muito mais poderoso do que parece.”
Caminhos possíveis — e urgentes
Especialistas consultados pela reportagem apontam que é preciso investir em políticas públicas locais, formação profissional e ações permanentes de combate ao racismo. Mas também reforçam a importância da conscientização dentro das famílias, escolas e empresas.
“Não basta dizer que não é racista. É preciso agir para que o racismo não se reproduza”, afirma a socióloga Fernanda Farias, estudiosa das relações raciais no Entorno.
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