Pode não estar estampado em manchetes dos jornais valparaisense ou registrado em boletins policiais, mas o racismo continua presente no dia a dia de muitos moradores de Valparaíso de Goiás. Ele aparece nas sutilezas, nas piadas, nos olhares, nas abordagens diferenciadas em lojas e até na busca por emprego. É silencioso, comum e profundamente doloroso para quem vive na própria pele.
Esta reportagem faz parte da série especial da Folha do Val sobre o mês da Consciência Negra e revela como o preconceito racial segue permeando diferentes espaços da cidade.
“Aqui dentro você está acompanhado?” — Racismo no comércio local
Entre os relatos mais frequentes está a desconfiança automática. Em diferentes bairros, moradores negros contam já ter sido seguidos por funcionários dentro de mercados, lojas de roupa e farmácias — como se fossem suspeitos em potencial.
Uma moradora do Jardim Marajó, que preferiu não se identificar, relata:
“Entrei na loja e logo atrás veio um segurança, colado. Eu senti o olhar, a pressão. Quando percebi que ele estava me seguindo, perdi até a vontade de continuar ali.”
Casos como esse são discutidos constantemente em grupos de WhatsApp e páginas de bairro, mostrando que o problema é mais comum do que se imagina.
Processos seletivos ainda marcados por preconceito
O mercado de trabalho em Valparaíso também reflete desigualdades. Mulheres negras relatam frequentemente receber respostas negativas sem justificativa, ou sequer serem chamadas quando entregam currículo pessoalmente.
Uma jovem do Jardim Céu Azul conta:
“Quando eu levava o currículo pessoalmente, percebiam meu cabelo e meu tom de pele. Já escutei: ‘a gente te avisa’, mas nunca avisavam. Pela internet era diferente: eu conseguia a entrevista.”
Esses relatos mostram que, embora o discurso de inclusão tenha crescido, as práticas ainda estão longe do ideal.

Microagressões que machucam
Nem sempre o racismo se apresenta de maneira explícita. Em Valparaíso, é comum ouvir mulheres negras relatando situações como:
- comentários sobre cabelo “adequado ou não”;
- piadas sobre traços físicos;
- “confusões” frequentes ao serem chamadas de outra pessoa negra, mesmo sem semelhança;
- elogios que reforçam estereótipos, como “morena exótica” ou “negra bonita”.
São episódios que, para muitos, passam despercebidos, mas que acumulados ao longo da vida geram dor emocional e desgaste psicológico.
Transporte coletivo e escolas também refletem a desigualdade
Em entrevistas feitas pela Folha do Val, moradores relataram:
- assentos vazios ao lado de pessoas negras, mesmo em horários de pico;
- adolescentes sendo alvos de comentários sobre cabelo e aparência dentro de escolas;
- professores corrigindo de maneira mais ríspida alunos negros;
- mães negras sendo tratadas com desconfiança em reuniões escolares.
Esses pontos mostram como o racismo afeta diferentes ambientes — e começa cedo.
Racismo velado, consequência real
Mesmo que a maioria das situações não seja formalmente denunciada, isso não significa que não existam. Em Valparaíso, o medo de retaliação, a descrença no atendimento e o desgaste emocional fazem com que muitas mulheres deixem de buscar a Delegacia da Mulher ou a Polícia Civil.
A ausência de registro não representa ausência de violência: representa falta de acolhimento institucional e excesso de dor acumulada.
Por que falar disso?
Trazer esses relatos à tona não divide a cidade — fortalece. Reconhecer as dores de uma parte da população é o primeiro passo para construir um município mais justo. A Consciência Negra não é apenas uma data; é um convite permanente para que Valparaíso olhe para si mesma e enfrente o que ainda precisa mudar.
A Folha do Val segue comprometida em oferecer espaço, voz e visibilidade para todas as mulheres negras que fazem parte da história viva da cidade.
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