O racismo não se manifesta apenas em palavras duras ou situações explícitas de discriminação. Muitas vezes, ele age de forma silenciosa — acumulando feridas emocionais profundas que afetam diretamente a saúde mental de mulheres negras em Valparaíso de Goiás. Especialistas apontam que o preconceito persistente na cidade tem provocado ansiedade, desgaste psicológico e perda de autoestima entre trabalhadoras, estudantes, mães e jovens mulheres.
Esta reportagem faz parte da série especial da Folha do Val dedicada ao mês da Consciência Negra.
Quando o preconceito vira cicatriz emocional
No transporte coletivo, no ambiente de trabalho, no comércio ou em escolas do município, pequenas situações repetidas ao longo dos dias geram impactos reais. Comentários sobre cabelo, olhares de desconfiança, diferenciação em atendimentos e exclusões sutis pesam na mente.
“Essas microagressões se acumulam. Uma mulher pode até ignorar uma ou duas situações, mas quando isso acontece todos os dias, o corpo e a mente começam a sentir”, explica Thaís Moreira, psicóloga clínica que atende mulheres em Valparaíso.
Segundo ela, é comum que pacientes relatem sintomas como:
- cansaço emocional constante;
- sensação de inadequação;
- medo de estar em certos ambientes;
- insegurança profissional;
- ansiedade elevada em tarefas simples, como entrar em uma loja.
Thaís reforça:
“O racismo não precisa ser gritante para causar dano. Ele corrói, silenciosamente.”
“Eu cheguei a duvidar da minha capacidade”
Para muitas moradoras, o impacto psicológico do preconceito é profundo. A auxiliar administrativa Juliana Sampaio, do bairro Jardim Ipanema, relata que vivia em constante autocobrança no trabalho.
“Cada vez que alguém falava do meu cabelo ou perguntava se eu tinha certeza de que aquele era meu setor, eu me sentia inferior. Comecei a acreditar que eu realmente não era boa o suficiente.”
Juliana procurou atendimento psicológico após sofrer uma crise de ansiedade dentro do ônibus, depois de ter sido hostilizada por passageiros por causa do volume de seu cabelo natural.
Especialistas apontam que Valparaíso enfrenta um problema invisível
A psicóloga social Renata Guedes, que faz atendimentos em grupos de apoio no município, diz que o racismo estrutural tem um impacto emocional ainda maior em cidades periféricas, onde a luta diária já é desgastante.
“Muitas mulheres negras de Valparaíso acordam às 4 ou 5 da manhã para trabalhar, enfrentam ônibus lotados e chegam a ambientes onde são subestimadas. O corpo já está cansado, e a mente acaba ficando ainda mais vulnerável.”
Ela afirma que a falta de políticas públicas específicas agrava o cenário.
“Não existem programas municipais voltados à saúde mental da população negra, especialmente da mulher negra. Falamos de um grupo que carrega sobrecarga emocional, financeira, social e racial.”
A escola e o ambiente familiar também influenciam
Além do trabalho, especialistas alertam que o racismo sofrido durante a infância em Valparaíso deixa marcas profundas. A pedagoga Lúcia Brandão, que atua em escolas, explica:
“Muitas meninas negras chegam na escola já rejeitando o próprio cabelo por causa de comentários de colegas e até de adultos. Crescem acreditando que precisam se ‘adequar’. Isso vira uma ferida emocional que segue para a vida adulta.”
Segundo ela, a ausência de representatividade em materiais escolares e atividades educativas reforça a sensação de exclusão.

Racismo e saúde mental: números que refletem a realidade
Embora Valparaíso de Goiás não possua um banco de dados específico, psicólogas que atendem na rede pública relatam que uma em cada três mulheres negras atendidas menciona algum episódio de racismo como gatilho de ansiedade ou baixa autoestima.
No Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do município, profissionais afirmam que o tema aparece cada vez mais nos relatos espontâneos de mulheres que buscam ajuda.
Quando pedir ajuda é um ato de resistência
Para profissionais de saúde mental, buscar apoio psicológico é essencial — e também revolucionário.
A psicóloga Thaís Moreira reforça:
“Cuidar da saúde mental é um ato de resistência. A mulher negra já nasce tendo de provar algo para alguém. Quando ela decide cuidar de si, ela quebra esse ciclo.”
Ela recomenda que mulheres que sofrem preconceito recorrente em Valparaíso busquem:
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial);
- psicólogos da rede municipal;
- grupos de apoio emocionais voltados para mulheres;
- rodas de conversa promovidas por coletivos negros da região.
📲 Siga as redes sociais da Folha do Val: Instagram, X (Twitter) e Facebook
📲 Receba no WhatsApp as notícias da sua cidade
