A mulher negra sofre dupla discriminação: além da lógica de exclusão racista, ainda enfrenta o machismo que perpetua a desigualdade potencializada. Nas diversas áreas da sociedade, as injustiças que assolam a mulher negra são profundas.
Neste 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra. Esta data é um marco de extrema importância para o movimento negro, pois simboliza Zumbi dos Palmares, representante fiel da resistência negra e da luta do negro pelos seus direitos. No entanto, há exatos 137 anos depois do fim da escravidão, a igualdade, de direitos e oportunidades está longe de ser alcançada, sobretudo se essa pessoa negra for do sexo feminino.
No mercado de trabalho, a diferença sociorracial é gritante. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres negras correspondem cerca de 44% da população brasileira. Sendo metade desse percentual composta por um grupo submetido à condições precárias de trabalho. Constatou-se também que esse mesmo grupo tem remuneração que corresponde a aproximadamente 30% do total do salário de um homem branco exercendo a mesma função.
Já na pesquisa “O Desafio da Inclusão’’, do Instituto Locomotiva divulgada em 2017 verificou-se que o quadro de desigualdade chega até mesmo para quem possui graduação no ensino superior. A remuneração de uma mulher negra com graduação concluída é em média, R$2,9 mil. Sendo o da mulher branca, dentro de um mesmo cenário, R$3,8 mil, e R$ 6,7 de um homem branco.
Quanto ao acesso da mulher negra ao ensino superior, houve um aumento significativo. O IBGE aponta que 10,4% das mulheres pretas e pardas concluíram o ensino superior. Os programas assistenciais de ensino como o PROUNI, FIES e as políticas de cotas, ajudaram o movimento negro a chegar nesse número, permitindo que pessoas negras e pardas tivessem acesso ao ensino superior, porém o percentual é bem abaixo dos parâmetros do que é considerado como igualdade. Dados do IBGE evidenciam que entre 2005 e 2015 o percentual de negros e pardos no ensino superior cresceu de 5,5% para 12,8.
A mulher negra é também a que mais sofre com a violência no país, segundo o Mapa da Violência, o número de homicídios dentro desse grupo social aumentou em 54% nos últimos dez anos, enquanto o de mulheres brancas caiu para 9,8%. Em 2017, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), levantaram dados e concluíram que foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres sendo a maioria negras.
É com esse recorte social que a Folha do Val traz 3 entrevistas com mulheres negras que vivem em Valparaíso de Goiás e que contam as suas vivências e a importância desse dia como sinal de luta e resistência. Com histórias de vida distintas e ao mesmo tão parecidas, pelo menos uma coisa em comum elas tiveram que enfrentar: o racismo.

‘’Não acreditavam que eu era competente’’
Pâmella Martins, 33 anos, advogada e assessora jurídica. Ela contou um pouco sobre as dificuldades que enfrentou ao entrar no mercado de trabalho. Segundo conta, apesar de ocupar um cargo alto, o preconceito e o racismo ainda é evidente dentro da empresa onde trabalha.
“Apesar da posição que ocupo, por causa da minha cor, às vezes as pessoas não sentem confiança no que eu falo e precisam validar a informação seja com meu chefe ou com minha colega. No começo sofria por não acreditarem que eu era competente para executar determinada tarefa. Demorou anos para que eles vissem que eu era competente, às vezes até mais competente, do que outros colegas que estavam na empresa há anos. Pra mim a pior coisa é olharem de baixo acima como se eu não fosse capaz de fazer o que eu me dispus a fazer, seja em trabalhos na época da escola e faculdade. Hoje trabalho numa empresa que o que conta é a minha competência, e agradeço muito por isso. Mas sei que têm pessoas que ainda sofrem muito por não serem reconhecidas”, declarou.
‘’A minha inteligência incomodava’’
A segunda personagem da reportagem é a bancária Alice Ribeiro de 39 anos. Tendo graduação e pós em Recursos Humanos, ela conta que uma das principais dificuldades enfrentadas foi em relação ao estereótipo já criado pelas pessoas em relação aos negros quanto à sua capacidade intelectual.
‘’Então para ingressar numa faculdade tive que primeiro reforçar dentro de mim que era tão capaz quanto qualquer outro aluno ali, independente da cor e da classe social. Para conseguir ter acesso a um curso superior tive que passar em um concurso público, que também foi um desafio, para só depois ter o dinheiro para cursar uma Universidade. Quanto ao preconceito, no meu caso era implícito, as pessoas não diziam claramente, mas eu percebi que a minha inteligência, competência e postura incomodava a muitos que por mais que se diziam não preconceituosos para eles era difícil ver uma negra ser tão ou mais inteligente e dedicada aos estudos que eles.’’
“Eles me levaram uma coleira e ração de cachorro e me obrigaram a usar e comer’’
A terceira e última entrevistada é a estudante Débora Samara, de 16 anos. Concluindo o 2º ano do Ensino Médio, a jovem com pouca idade já passou por muita coisa. Ela conta que sofreu racismo e discriminação pelo seu corte de cabelo, pela sua cor e já sofreu violência por isso.
“Sou estudante do ensino médio e tive dificuldade para conseguir uma bolsa de estudos em um colégio particular. Não consegui, e tive que buscar em outra escola. Percebi que por mais que eu tivesse ganhado uma boa bolsa, me falaram que as turmas estavam cheias sendo que uma amiga minha que tinha tirado uma nota menor conseguiu e eu não.
Por diversas vezes, vi as pessoas me olhando feio ou falando que eu tinha que ajeitar o meu cabelo, ou que não era cabelo de ambiente escolar, me mandando abaixar a minha “juba”. Algumas pessoas da minha família, inclusive, me falaram isso. Que meu cabelo é mais bonito “baixo’’ e que eu deveria pentear o meu cabelo. Ou então algum menino da minha sala fala que as morenas são as melhores para “pegar’’ e que são muito boas na hora de “fazer”, mas não servem para casar ou namorar por serem mulheres fáceis.
Já tentaram me agarrar na escola, e mesmo eu denunciando aos responsáveis, eles me disseram que não podiam fazer nada e que isso ia acontecer porque a minha cor “chamava atenção’’. “Preta do cabelo duro”, “macaca de circo”, “gato preto de bruxa “ e “cachorra de cio” foram alguns de vários apelidos “carinhosos” que eu já recebi na escola. E eu sem poder falar ou me posicionar, porque ali eles nunca me deram voz. Nunca consegui me defender. Eu entrava em pânico e dava uma cotovelada nos que tentavam me agarrar. Eu ficava no chão gritando ou chorando.
O pior ato de humilhação que eu sofri foi quando eu tinha 13 anos. Eles me levaram uma coleira e ração de cachorro e me obrigaram a usar e comer e ainda quase tive o fêmur fraturado. Nessa época eu estudava em uma escola que a metade das pessoas lá eram brancas de família rica.
Hoje ainda escuto uma piada de mau gosto ou sinto um puxão de cabelo, mas ser feminista me ajudou, e hoje em dia eu aprendi a usar a minha voz e minha arte a meu favor. Depois de ver tantas mulheres negras que conseguiram lutar por si mesmas e conquistar o mundo me fez querer mudar.’’
Causa e efeito
Reflexão sobre o tema é o primeiro passo. O Dia da Consciência Negra convida a refletir e reconhecer que a desigualdade social, tendo por protagonistas os negros, existe.
Que as oportunidades reduzidas a um determinado grupo já marginalizado com reflexos de um passado de escravidão têm como consequência a potencialização e persistência de injustiças que assolam os negros.
No caso das mulheres afrodescendentes, com duas forças de repressão, a problemática é ainda mais grave, pois as tornam como vítimas prioritárias do racismo e machismo. A visibilidade delas é importante.
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