Crack no Valparaíso do Goiás: Em um terreno baldio na Vila Marajó no Valparaíso do Goiás, um barraco improvisado de lona se tornou ponto de intenso movimento ao longo do dia. Dentro do espaço apertado e escuro, as chamas dos isqueiros iluminam rostos marcados pelo vício, enquanto cachimbos rudimentares são acesos sem cessar. O cheiro forte de crack se entranha no ambiente sufocante, onde mais de dez pessoas se amontoam, dividindo não apenas o espaço, mas a dependência. A cada nova chegada, o ciclo recomeça: uma nova “pipada”, mais uma tentativa de anestesiar a realidade.
Nos últimos dias, o jornalista Elvis Ferraz, percorreu diversos pontos da cidade para investigar a disseminação das chamadas “tocas do crack” – esconderijos precários onde usuários se reúnem para consumir a droga, muitas vezes sob a influência de grupos criminosos. Esses locais vêm se multiplicando e criando pequenas “cracolândias” espalhadas pelos bairros, uma tendência que já começa a preocupar as autoridades.
Durante oito tardes, o jornalista esteve nesses pontos, testemunhando de perto a rotina daqueles que parecem presos a um ciclo sem saída. O consumo é ininterrupto, as expressões são vazias, e a sensação é de que, para muitos, escapar desse cenário se tornou uma possibilidade cada vez mais distante.
“Aqui é que nem rodoviária, o fluxo não para. Passam mais de 30, 40 pessoas por dia. O cara entra, fuma, sai e depois volta de novo. É assim o dia todo”, relata Roberto*, dono de um dos barracos que servem de refúgio para usuários. Dependente desde 2002, ele admite consumir até 30 pedras diariamente. “O crack rouba sua alma, e você simplesmente não consegue parar”, desabafa.
As chamadas “tocas do crack” geralmente começam como abrigo improvisado, mas rapidamente se transformam em pontos de consumo. A notícia se espalha entre os usuários, que passam a frequentar o local sem precisar pagar nada – ainda assim, os donos acabam sendo recompensados. “Não cobro nada, não peço nada, mas sempre sou lembrado. Como se fosse uma espécie de anistia, uma regra não escrita”, explica Ricardo*.
Entre a fumaça dos cachimbos, multiplicam-se histórias marcadas pela dor e pelo abandono. Muitos dos frequentadores vivem nas ruas ou sobrevivem da coleta de recicláveis, enquanto a droga se torna sua única fuga da realidade. “Minha vida gira em torno da próxima pedra. Quando acaba o crack, acaba o amor”, resume Leandro*, que não vê a família há quatro anos. “Eu desapareci porque eles sofriam. Fui eu que escolhi esse caminho, então sou eu quem tem que pagar o preço.”
As pequenas cracolândias do Valparaíso não abrigam apenas moradores de rua ou pessoas em situação de extrema pobreza. Entre os frequentadores, há também aqueles que um dia tiveram uma vida estável, mas foram arrastados para o fundo do poço pelo crack.
Fernando*, 42 anos, é um desses casos. Ex-produtor de moda, ele construiu uma carreira de sucesso e trabalhou para marcas renomadas como Dior, Zoomp e Forum. Era casado, vivia em um apartamento espaçoso no bairro Águas Claras no Distrito Federal, e levava uma vida confortável. No entanto, tudo começou a desmoronar quando um vizinho passou a misturar pedras de crack em cigarros de maconha que eles compartilhavam. Sem perceber, Fernando entrou em um vício que lhe custaria tudo: o casamento, a carreira e a dignidade.
“O crack é a besta. Ele te escraviza, e você passa a viver só para ele”, define. O arrependimento é evidente, mas a sensação de impotência também. “Meu maior sonho é acordar e perceber que tudo isso foi só um pesadelo. Mas, no estado em que estou, eu nem escovo mais os dentes. Tenho nojo de mim, mas não consigo sair.

Reportagem investigativa da Folha do Val revela o crescimento alarmante das ‘tocas de crack’ no Valparaíso do Goiás (GO).
“A sociedade trata a gente como bicho. Então, a gente vira bicho”
Com um punhado de pedras nas mãos, Mauricio* treme ao conversar com a reportagem. Está na fissura para fumá-las. Mas, antes, conta como é caminhar pelas ruas do Val, como se carregasse um rótulo invisível. Ele sabe que os olhares sobre ele mudaram desde que se tornou dependente do crack. O preconceito o acompanha a cada passo, corroendo o pouco que resta de sua autoestima. “Quem usa crack é tratado como lixo, como se não prestasse. A sociedade nos enxerga como bichos. E, no fim, a gente acaba virando bicho mesmo”, desabafa.
Dentro das “tocas do crack”, ninguém tem ilusões sobre a própria situação. Os usuários sabem que são vistos como marginais e acreditam apenas estar devolvendo à sociedade o desprezo que recebem. “Todo mundo aqui, em algum momento, fez algo errado por causa do vício. Teve que mendigar, roubar… É a realidade. Mas a sociedade precisa entender que, se fechar os olhos para nós, vai pagar o preço por isso”, alerta Jodson*.
A pergunta que fica é: até quando o poder público seguirá ignorando esse problema? A marginalização desses usuários apenas reforça o ciclo do vício e da criminalidade. Se não houver uma política real de acolhimento e recuperação, a cidade continuará assistindo passivamente ao crescimento dessas cracolândias improvisadas, como se fossem parte inevitável do cenário urbano.
O silêncio da prefeitura do Val
O jornalismo da Folha do Val entrou em contato com a Prefeitura do Valparaíso de Goiás para buscar informações sobre as políticas públicas relacionadas ao uso de drogas no município, especialmente em relação à crescente presença das “tocas do crack” e à atuação do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
Infelizmente, até o momento, não obtivemos resposta aos nossos questionamentos. As questões levantadas envolvem a presença e expansão dos pontos de consumo de crack, as ações de combate e prevenção adotadas pelo município, além do acesso ao tratamento e apoio aos dependentes químicos.
Acreditamos que, com a colaboração das autoridades locais, é possível encontrar soluções para esse problema crescente. A Folha do Val permanece à disposição para continuar o diálogo e buscar informações que ajudem a comunidade a entender melhor as ações da Prefeitura sobre o tema.
Nota da redação:
*Todos os nomes foram substituídos para proteger a identidade dos entrevistados.
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Nota: Esta reportagem é um especial do Grupo RVS de Comunicação, empresa proprietária da Folha do Val. Apoie o jornalismo profissional no Valparaíso de Goiás: curta, comente e compartilhe.
